foto: Joao Manita
" (...)Quando escrevemos uma carta, parece que estamos a escrever uma história. Contamos um ou outro episódio, fala-se da vida, da família…podemos falar de tudo, e mesmo sendo um monólogo…uma carta pode conter todas as emoções. Uma carta mexe com a pessoa que escreve e com aquela que lê…nas cartas não estão apenas palavras, todas juntas trazem reproduções, que se transformam em miragens trasladadas para o presente. Por esta razão vou falar-te duma pessoa que conheci há muitos anos, talvez tu a reconheças se por acaso o teu olhar se cruzar com o dela num espelho qualquer. Ela tem um olhar que abarca este e outro mundo. Um sorriso que nos convida a sorrir também. (…)
Esta pessoa que descrevo não a conheci numa tela de cinema, ou numa história de príncipes ou princesas… é real. Ainda hoje existe… aparece é pouco nesta pele.
Assisti a grandes agitações da sua parte… ficava perturbada quando via amigos afundarem-se em mundos estranhos e perigosos, assisti a emoções que pensava não existirem, simplesmente porque “perdeu” esta ou aquela pessoa. Se ela pudesse dar a mão a todos os que gosta… formava um círculo gigante, porque a quem ama ela não prescinde.
Tem sentimentos tão transparentes e límpidos que quase se pode sentir a extensão deles… têm amplitudes desmesuráveis e de dignificar. Estar com esta pessoa serena e sem qualquer máscara, é o antídoto para a cura de seres maléficos e deita por terra todos os nossos maus pensamentos. Ela faz-nos acreditar que nunca é tarde para atingir sonhos, diz que as pessoas podem mudar independentemente da idade. Alerta-nos para sermos honestos connosco próprios, alicia a fazer-nos felizes, convida-nos a olhar o horizonte e a acreditar que podemos chegar lá.
Nunca lhe vi as mãos cerradas, têm-nas sempre bem abertas para receber e dar, gesticula duma forma onde muitas vezes as palavras perdem o som.
Sabe que o excesso de erros não é infortúnio, mas sim burrice.
Adora pessoas. Descobrir o lado de lá delas... é um prazer, mas retém-se quando o assunto é ela. Gosta de saborear a vida, tem consciência dos riscos que corre…mas também sabe, que tem de tentar sempre mais uma vez antes de desistir, virar costas não faz parte dos seus planos. Gosta de ganhar, de ser elogiada…o ego agradece. Gosta de aprender sempre mais. Fica à toa quando lhe dizem que é bonita…mas gosta de ouvir. È tímida, mas em grupo destaca-se e gosta de ser o centro das atenções. Gosta da novidade, de sensações diferentes e emoções fortes. Guarda alguns segredos, outros partilha…mas não na totalidade. Gosta de atenção, gosta que lhe digam o quanto é importante para os que ama, não gosta que a “descartem”, a usem ou que a desprezem.
A paixão pelas coisas ou pessoas coabita dentro dela. Adora ler, mas passa mais tempo a escrever. Escreve o que lhe vai atrás da alma e do coração…os dedos palmilham as teclas do computador com a mesma rapidez que o pensamento. De vez em quando pára, roda o piercing ao mesmo tempo que fuma um cigarro e lê o que escreveu, vê se está bem ou se deve expor o que escreveu. (…)
Escreve sobre os outros ou sobre ela, utiliza eufemismos para não suscitar mentes mais fracas. De mundos cinzentos transforma-os em coloridos. Dá vida ás palavras, som aos gestos…
Ainda há pessoas com esta índole… e são estas pessoas que me fazem acreditar num mundo melhor. (…) "
Maria
Receber uma carta começa a tornar-se, de facto, nos dias de hoje algo raro. Tens razão Maria...os emails, as mensagens e os seus derivados, muitas vezes acabam por substituir as cartas em papel. O que é pena. Eu continuarei a escreve-las. Muitas não chegarão aos seus destinatários, mas eu continuarei a escreve-las e a guarda-las nas minhas gavetas e gavetinhas. Eu gosto de cartas, do cheiro do papel e dos livros. Por isso foi uma boa surpresa encontrar uma carta no correio neste meu dia, que tu sabes que adoro. Transcrevi esta parte da carta, porque gosto de saber a definiçao que os outros têm para mim, e a tua... está muito próxima da realidade.
Obrigada.
Mafalda



















De uma selecção de textos deste blogue nasce um livro.
E porque a história da Inês e Mafalda ainda está longe de estar concluída, decidiu-se pela publicação apenas de algumas crónicas, que a autora escolheu chamar "Remoinho de Emoções" .
Os pormenores podem ser conhecidos aqui:
http://remoinhodeemocoes.blogspot.com/



