
Dez da manhã. Nem uma hora de trabalho tinha passado por mim. A Matilde entra no meu gabinete com aquele sorriso matreiro e experiente, de quem já conseguiu adivinhar o que por aí vinha mesmo antes de o mistério ser deslindado.
Encomenda dos CTT sem remetente. O destinatário trazia o meu nome.
A minha expressão foi de surpresa.
A Matilde ficou especada à minha frente, e perguntou “ não abres?”.
“ Abre tu, como fazes com a maior parte da correspondência” – disse-lhe eu a tentar mascarar o frenesi e a excitação de descobrir o que trazia aquele envelope grande e enchumaçado.
“ Isto não me parece correspondência como a maior parte, mas estou tão curiosa que vou mesmo abrir.” Rematou ela com a sua tendência curiosa a falar mais alto.
“ Dá cá isso, eu abro. Ou muito me engano, ou isto é coisa da Mafalda ” ao mesmo tempo que lhe arranquei aquele invólucro enigmático das mãos.
Confesso que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi mesmo que fosse uma surpresa tua, das muitas com que costumas brindar as pessoas de quem gostas. Mas não… a surpresa vinha de outras mãos.
“ Tenho saudades de um beijo dos nossos…de sugar-te a língua como se o mundo fosse acabar…”
Era esta a frase… só que gravada num telegrama de chocolate. Esta era a frase, e esta não era uma frase qualquer.
Soltei uma gargalhada. Uma grande gargalhada. Daquelas espontâneas e que sabem tão bem, e não são assim tão frequentes pela manhã.
Voltei a olhar para o telegrama de chocolate. Agora fazia sentido o porquê da não existência de remetente.
O Filipe…veio cá e decidiu remexer no passado.
Lembras-te da última vez que falei dele aqui? Está registado. É só voltar um pouco atrás no tempo. Lembras-te do que disse? Foi em Outubro do ano passado...
Passaram muitos meses desde então. Quase um ano.
Nunca mais soube dele. Nunca mais lhe pus a vista em cima e tinha dado a nossa história como encerrada. Mas não. A prova disso é o efeito que este telegrama teve em mim. E eu a pensar que já não haveria nada vindo dele que ainda mexesse comigo. Mas mexeu. Não tenho como fugir. Mexeu e mexe comigo. Voltei a sentir tudo no preciso momento que abri a misteriosa surpresa.
Tive medo. Mafalda, eu estou aterrorizada de medo. Tenho medo. Muito medo. Medo do que vou sentir se o voltar a ver. Medo de tudo. Se me perguntassem ontem algo sobre ele eu afirmaria com toda a convicção que o guião tinha sido encerrado. Mas hoje estou convicta que voltará a mexer comigo se me abraçar.
E se me aparece de surpresa…e me beija as costas, os braços. E se volta a beijar-me o olhar? E se passa aqueles dedos na minha cara e a seguir saboreia os meus lábios? E se me agarra pela cintura e me ergue sobre ele?
Hoje lembrei-me do que pensei estar arrumado. Reabri o guião e descobri que ainda gosto de tanta coisa nele. Hoje descobri que tenho saudades da outra Inês…a que gostava de o sentir naquela posição a olhar para ela.
Do quanto gostava de olhar para ele…dos momentos em que brincava com a minha língua… dos momentos em que não havia qualquer textura ou tecido entre nós. Do contacto daquele corpo com o meu.
Será possível que ainda goste de tanta coisa nele? GOSTO…Gosto especialmente disto que me fez sentir hoje, destas surpresas que me fazem sentir outra vez adolescente.
Será que ainda mantém aquele sorriso que eu também gosto? Aquele de menino safado.
Descobri que ainda gosto muito quando se lembra de mim. E também descobri que ainda gosto de lembrar-me dele.
Mas eu sei que não posso, que não devo lembrar-me…
Só não sei por quanto tempo mais irei conseguir fugir deste desejo que agora sinto…de voltar a estar com ele.
Inês