Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Conversas com o fantasma...

foto: José de Almeida e Maria Flores

Calafrios. Estremecimento. Tremor. Na pele e na mente.
A sensação glacial, enregelada e inerte das relembranças e memórias antigas.
A vista a partir dos meus olhos torna-se nublada.
A melancolia pura e dura. A melancolia triste, cerrada e sombria. Essa mesma…que me aflige os passos, me troca as palavras e desequilibra os actos.
Não sei de ti. Tudo o que resta de ti aparece em forma de vórtice. É em mim que tu aconteces. Só em mim. E mesmo que já não sejas real ou palpável ao meu tacto, há dias em que o que resta de ti em mim, se manifesta subitamente. E é aí que ainda te sinto cravado e desordenado em cada poro.
A minha ressaca de ti é aterrorizante, é uma forte e perigosa ameaça à minha sanidade mental. E nem vou falar do trapézio em que vivem as minhas emoções, que acaba por ser a consequência dessa ressaca. Não posso “consumir-te”. Tu já nem sequer existes. Mas muitas vezes, quando olho para dentro de mim, a tua imagem aparece lá reflectida. Todos os vestígios e indícios de ti estão em mim e apenas em mim.
Ando há dias, semanas, meses a fugir de ti. Mesmo que sejas apenas um fantasma.
Hoje quis enfrentar-te. Depois de mais uma crise de choro, de um momento de ansiedade misturado com ataque de raiva decidi que hoje era o dia de te enfrentar. Não quero lutas. Já me chega a luta diária para me esquecer que ainda existes, mesmo que só existas apenas em mim.
Olhei para ti. Para a tua imagem distorcida de fantasma. Para os pedaços de ti que vivem colados à minha pele, para os fragmentos soltos aqui e ali.
Olhei e perguntei-te quando pararias de me atormentar. Tu não respondes. Os fantasmas não falam. Não falam, mas agitam e impulsionam uma serie de coisas más.
A resposta possivelmente está em mim. A ordem de expulsão já foi dada há muito tempo. Mas tu não sais e nem eu consigo arrancar-te de mim. Então voltei a olhar para ti, desta vez sem vacilar. Posso não ser capaz de emitir finalmente a ordem de despejo. O mais provável é que nunca desapareças. E eu deixo-te ficar … mas com a condição de não te manifestares em forma de assombração, nem provocares por aqui qualquer tipo de desordem emocional.

Mafalda

Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

" AMOR " por José Luís Peixoto



" Ouve. Há dias em que questiono os gestos mais simples. Respirar, o que é? Nesses dias, as metáforas fazem mais sentido do que beber um copo de água. O que é um copo de água? Um copo é feito de vidro e eu não sei de onde vem o vidro, transparente e frágil, duro, excepto perante o chão, excepto perante uma pedra. Alguém lhe deu a forma de copo, esse conhecimento foi ensinado através de gerações, há estranheza em tudo isso: nesse alguém desconhecido, nessa distância. Depois, há a água, essa substância que chove, oposta ao fogo, que atravessa organismos provisórios. Há o próprio acto de beber, que é uma necessidade fisiológica. Em dias, como hoje, tudo isso é absurdo, falta-lhe sentido, e as metáforas têm muito mais lógica, crescem do ar, ateiam-se num mundo invisível. Se procuro razões, acredito que somos mais importantes do que a nossa pele. Somos mais importantes do que os nossos pulmões.


Os nossos cabelos ficam mortos na almofada, há vassouras a varrê-los no soalho. Para nomear aquilo que comunica entre nós, precisamos de metáforas. Sei que entendes o meu inverno, vejo-o no reflexo dos teus olhos e, no entanto, não são os teus olhos que vejo. Falo dos teus olhos apenas porque esta é a linguagem da nossa condição, da nossa espécie, mas aquilo que temos para dizer e nos une é muito maior e mais importante do que a nossa condição ou do que a nossa espécie.

Por exemplo, damos a mãos. O que importa realmente não são as nossas mãos, feitas de ossos que aprendemos nas aulas de biologia, mas sim uma âncora de oceano. Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas.

Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.

Escuta,

ouve.

Amor.

Amor. "

José Luís Peixoto, in Jornal de Letras (Junho, 2010)

Domingo, 20 de Junho de 2010

Ela ...


...odeia domingos melancólicos , e sensações destas.
Ela... tem medo e não quer sentir nada disto ...

Inês

Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

As palavras por José Saramago



"(...)As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam.(...)"

José Saramago
1922-2010

Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

Onze anos do teu mundo no meu...

                                                 foto: Ana Limão
Maninho do meu coração...
...se começo a escrever para ti e sobre ti é sempre difícil parar. Da mesma forma que é difícil inventar palavras para qualificar ou quantificar o que o teu mundo trouxe ao meu. É daquelas coisas que não têm género ou tamanho. Entendes? Poderia usar aqui as metáforas que eu tanto gosto, mas não há nada a que eu possa comparar-te metaforicamente. Aliás, não há nada a que eu possa comparar-te de forma alguma.

Este dia...o 17 de Junho de um ano de números ímpares é o dia mais importante da minha vida. E eu nem gosto de números ímpares. Mas foi precisamente um ano só de números ímpares que me trouxe um sentimento novo e até hoje o mais completo que vive em mim. E sem ti, eu não teria conhecido sequer este sentir...nem poderia tão pouco atribuir-lhe nome ou valor.
Depois também descobri que este é um sentimento sem qualquer preço ou denominação.
Este dia...o teu dia...o dia da tua chegada. Inesquecível. 17 De Junho. Fim de tarde, muito perto da hora de jantar (se calhar é por isso que gostas tanto de comer). Ouve-se o primeiro choro. Ali estavas tu. Lindo. Doce. Indescritível.
A primeira imagem que tenho de ti, és tu a sorrir. Juro! Juro que a primeira vez que me viste (sem me veres no sentido literal da palavra) … sorriste. Deves ter sentido o meu sorriso que se rasgou de forma emocionada e então retribuíste. Retribuíste com esse sorriso, esse que ainda hoje manténs. Igualzinho. Igualzinho e desde sempre… quase, quase uma fotocopia do meu.
Sou oficialmente uma mana " babada " desde o primeiro minuto e acredito que por toda a minha vida.
Hoje, passados onze anos dizem que és a minha fotocópia em versão masculina. O sorriso, a personalidade e muitos outros traços físicos e emocionais. E eu “ babo”. Claro que “babo”. “Babo” de orgulho. E não é só por seres " igual " a mim... mas por olhar para ti e ver nos teus olhos um universo cheio de sonhos e saber que tu serás sempre a pessoa a quem darei o melhor de mim.
Amo-te...

Feliz Dia :)

Mafalda

Sábado, 12 de Junho de 2010

Ela sente...



...sente na pele o pulsar acelerado que desta vez não viu. Sente as pernas entrelaçadas que a prenderam tão doce e inevitavelmente. Sente que aquele local será sempre o local que o faz sentir perto. A magia estava lá, mas faltou a presença. E ela inconscientemente procurou o cheiro que lá ficou, as muralhas que serviram de apoio aos corpos ansiosos, às mãos de veias salientes num latejar que não tem definição de tão intenso e urgente que era a cada toque...

Inês

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

3 anos !!!

                                                           foto: Dolores Guimarães

Três anos a partilhar emoções. Obrigada por sentirem connosco...

Inês e Mafalda                                      

Terça-feira, 8 de Junho de 2010

Em preparação...


                                                   foto: Didi arte
...para cortar o ùltimo fio da corda já suja e desgastada, que mantinha apertado o nosso "nó".

Mafalda

Segunda-feira, 7 de Junho de 2010

A noite passada…


" Quando penso que já arrumei velhas questões na gaveta do arquivo, eis que, durante a noite, volto a ser usurpada por aparições cujas feições e cheiro conheço de cor. Não é leal nem tão pouco correcto que coisas destas nos aconteçam precisamente durante a única altura do dia em que estamos completamente desprevenidos. Há visitas que, em nome do esforço hediondo que um dia tivemos que fazer, não deveriam ser permitidas durante o sono. Porque não é leal, volto a dizer. Era suposto ter seguido em frente. Era suposto que as decisões mais difíceis, porque as mais correctas, me devolvessem o sentido de orientação entretanto perdido. Em vez disso, continuo a ter os sonhos povoados de recordações cujo cheiro e feições sei de cor. "

Made in Lisbon

Eu vinha cá escrever sobre isto…sobre o fantasma que me visitou durante o sono na noite passada. Entretanto fui passear pelos blogues aí do lado. E eis que…encontro o que transcrevi acima. É da Maria… claro. E pronto. Está tudo dito. Ele voltou a invadir o meu sono e eu já sei que nos próximos dias vou voltar a pensar, a questionar se realmente consegui seguir em frente, e pior do que isso…vou voltar a sentir aquele aperto associado a saudades que me mostrará mais uma vez, que por qualquer razão aquela pessoa continua a fazer-me falta…

Mafalda