Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

Crónica dos Leitores - Experiências ( Esperança ) # 3

"  Esperança??


Hoje, numa sala de espera de uma clínica, ouvi uma conversa entre duas senhoras que me fez pensar. “A esperança é sempre a última a morrer”, dizia uma delas. Concordo, mas só quando se trata da saúde. Quanto a mim, saúde ainda não me falta, e a esperança não é propriamente algo que me faça bem ou me dê forças. A esperança só serve para prolongar o meu sofrimento. A esperança faz os meus olhos ficarem raiados e a minha respiração alterada. A esperança tira-me a saúde emocional. A esperança torna-me ansioso, na espera de um momento que, provavelmente, nunca chegará. Provavelmente? Lá está ela. Um momento que nunca chegará. Corrijo. Não posso ter esperança quando esta não depende de mim. Não posso ter esperança, na mesma medida que não mando nas pessoas. Muito menos nos sentimentos. E isso, já aprendi faz tempo. Mas ela teima em aparecer. Muitas vezes camuflada de saudade e em toda a parte. Acordo e olho para o telemóvel para desligar o despertador. Penso na mensagem de bom dia que me fazia logo sorrir. Paro e respiro fundo. A caixa de entrada está vazia. Olho para o lado e estou sozinho. Uma vontade de a ver logo ao acordar invade-me. A cama parece que ainda tem o cheiro do perfume. Recordo os sonhos onde a encontrei durante a noite. Saio apressado para tomar banho e para realidade. Ainda antes de sair tropeço na camisola estendida no chão. A imagem da mesma camisola no corpo dela passa-me pela frente. Esfrego os olhos. Penso para mim: “acabou, acorda…”, enquanto aperto os cordões das sapatilhas. As sapatilhas que ela mais gostava, comecei finalmente a andar com elas. Vou pelas escadas. A espera do elevador lembra-me a primeira vez que ela entrou na minha casa, na minha vida. Entro no carro já atrasado para o trabalho. O rádio liga. A nossa música está a dar. Mudo de estação ou não? Não consigo mudar. Já no emprego liga-se o computador e as redes sociais. O nome dela aparece e é o primeiro da lista de amigos. Alterou a foto de perfil. Queria ver mas não posso. A felicidade no seu mural incomoda-me. Um pouco de egoísmo da minha parte. Talvez. Confirma-se mais uma vez. Ela está feliz. Não resisti e o rato do computador levou-me lá. Durante todo o dia as recordações vão aparecendo, sempre que o telefone toca, o meu coração dispara. Não era ela. Questiono as palavras, os momentos, os sonhos e planos. Tento sempre pensar que, se calhar, foi o melhor. Para mim, para ela, para nós. Nós? Já não existe. Se calhar? Foi mesmo. Tenho vários motivos para pensar que sim. Custa-me a distância e a indiferença. Tinha tanto para lhe contar. Por muito que fuja, depois acabo por ter de voltar para casa. Espreito sempre para o nosso sítio. O carro dela não está estacionado. Tento dormir antes de jantar. Sim, eu sei, naquele sofá onde passamos tardes abraçados. Não adormeci e está na hora. Dou por mim a deitar o refrigerante da forma que ela me ensinou. Está na hora agora é de sair. Apanhar frio faz-nos sentir que tudo é real. A chuva mostra que estamos vivos, não adormecidos. Os amigos anestesiam. Mas depois, acabo por ter de voltar para casa. Sim, eu sei, naquele carro onde trocamos promessas. No espelho do elevador vejo uns olhos cansados de pensar. Nem imaginam o quanto. As chaves abrem a porta de casa. O sofá está no mesmo sítio. O quarto está igual, só mais vazio. Pouso a cabeça na almofada. Quero dormir. Mas será que esta noite ela vai aparecer outra vez? Perco o sono. Vou para o sofá. O corpo não aguenta mais. Mas naquele segundo antes de adormecer penso: queria ter sido especial. Por isso, esta manhã, apeteceu-me dizer àquelas senhoras, que esperança? Mais não. Esqueçam.  "

Por : Anónimo

Para  crónica dos leitores

4 Experiências comentadas:

Lou Alma disse...

Uma excelente crónica, que faz pensar :

Porque nos agarramos nós à esperança que outros nos podem fazer felizes? Talvez um toque de masoquismo seja o pior dos inimigos do ser humano. A esperança deve existir sempre, mas dentro de nós, para nós ( e para os que se contam em nós ) e não para incontornáveis, imponderáveis.

Poetic GIRL disse...

Uau simplesmente arrepiante! e por muito que nos custe admitir a esperança realmente nessas situação ainda nos engole mais, bjs

C. disse...

Adorei!

Tilida5ever Design-Rosinha disse...

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